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Charlotte Casiraghi inaugura, a cavalo, a alta costura construtivista da Chanel

27 jan 2022 • por Nina Kauffmann • 0 Comentários

Justamente quando se falava de uma temporada de desfiles íntimos da Alta Costura, Virginie Viard e o artista Xavier Veilhan trouxeram um cenário metafísico muito ambicioso e uma coleção construtivista para a Chanel.

Chanel – primavera/verão 2022 – Alta Costura – Paris – © PixelFormula


A temporada começou na manhã de terça-feira (25) com a princesa Charlotte de Mônaco vestida com uma jaqueta de alta costura de lã antracite Chanel, com botões de joias, montando seu cavalo Cusco, desfilando pela passarela, antes de galopar.

Um arranque espetacular para um desfile, em um Grand Palais Éphémère reinventado com sinuosas passarelas em areia, plataformas acarpetadas e assentos em estruturas tubulares. Anéis gigantes e rosetas animadas em movimento criaram um cenário deslumbrante para a chegada de celebridades, de Elsa Zylberstein a Pharrell Williams, Anamaria Vartolomei ou Abd Al Malik, passando por Margot Robbie, Carole Bouquet, Sofia Coppola e Vanessa Paradis, gente bonita dividida para os dois desfiles, às 10h e ao meio-dia.

Sobre o décor pairavam luzes de 20 metros quadrados, comprimidos enormes do tamanho de caminhões e esculturas cúbicas monumentais dispostas em filas escalonadas. No centro do palco, o DJ Sébastien Tellier estava empoleirado num set de dez metros de altura, tocando uma grande trilha sonora de funk eletrônico “stomp and buck”.

Chanel – primavera/verão 2022 – Alta Costura – Paris – © PixelFormula


No geral, foi uma exibição visual brilhante criada por Veilhan, o convidado de honra da França na Bienal de Veneza de 2017.

Toda a coleção foi inspirada nos padrões e formas gráficas da década de 20. Mas nada demasiado retrô. Na abertura, elegantes tailleurs cujo clássico casaco de quatro botões foi feito de lã bouclé azul egípcio ou em pied-de-poule cor de cobre. Virginie Viard imaginou uma série de robes-manteaux cru, com xadrez framboesa ou morango, combinando com mangas em plumas de marabu. Tudo complementado por sapatos Mary Jane de duas cores, com saltos impressionantes inspirados nos anos 20. E usado por um elenco de modelos ostentando aquilo a que os franceses chamam de oeil au beurre noir, ou seja, olho roxo.

“As formas geométricas me fizeram querer contrastes, muita leveza e muito frescor: vestidos etéreos que flutuam como se estivessem suspensos. Muitos babados, franjas, macramê, rendas brilhantes, tweeds iridescentes, botões coloridos de joias”, se entusiasmou Viard.

Mas, a sua melhor ideia foi uma saia recortada, com uma fenda no meio até à cintura, e usada sobre camisas de renda brancas ou douradas pelo joelho. Para a noite, Viard misturou vestidos de festa e cocktail de chiffon em sobreposições com blusões de motard em lã bouclé e boleros. E propôs vários vestidos coluna tecidos em tons brilhantes de platina, conferindo glamour entre-deux-guerres a estas peças. Destaque para um vestido longo inteiramente bordado por Lesage com camélias construtivistas em pérolas pretas, brancas e coral, mais uma vez associado a uma jaqueta preta.  

Chanel – primavera/verão 2022 – Alta Costura – Paris – © PixelFormula


No meio do cenário, um vídeo granulado em estilo punk chic e cool foi projetado em duas telas monumentais: vimos Charlotte Casiraghi – embaixadora oficial da Chanel – cavalgando Cusco no meio da floresta, sob a lente do fotógrafo norueguês Ola Rindal. Este interlúdio equestre oscilou entre fantasia e realidade, assim como esta coleção de alta costura.
 
E, quando o desfile atingiu o clímax, Sébastien Tellier começou de repente a fingir tocar um enorme bandolim abstrato de madeira, enquanto na primeira fila Pharrell Williams levantou o punho para mostrar o seu agrado.
 
Nos bastidores após o desfile, Virginie Viard disse ao FashionNetwork.com: “A ideia para este décor surgiu de um desejo antigo de trabalhar com Xavier Veilhan. A suas inspirações construtivistas lembram as de Karl Lagerfeld. Adoro esse espírito similar entre nós, hoje e através do tempo. Além de criar o décor do espetáculo com referências aos avant-gardes das décadas de 20 e 1930, Xavier quis trabalhar com Charlotte Casiraghi. O seu universo artístico é cheio de cavalos, e Charlotte é uma cavaleira experiente.”

Chanel – primavera/verão 2022 – Alta Costura – Paris – © PixelFormula


Este foi primeiro desfile da Chanel desde que os proprietários da marca, a família Wertheimer, anunciaram que haviam nomeado uma nova diretora-geral para a maison, Leena Nair. Esta junta-se à gigante da moda após ter sido diretora de recursos humanos da Unilever. Mas, Leena Nair, que iniciará a sua nova missão em 1º de fevereiro, não esteve presente em Paris.

Por outro lado, o atual diretor e líder do clã, Alain Wertheimer, discretamente sentado na segunda fila, passou metade do desfile fotografado e gravando vídeos com o seu iPhone, sinal de que estava de bom humor. E deveria, depois desta coleção extremamente bem sucedida, ainda que não muito experimental, e a melhor encenação vista em Paris em vários anos.
 
Muitas vezes, Virginie Viard é ligeiramente rebaixada pela crítica, que a qualifica como uma criadora talentosa, mas desprovida da visão própria de um grande diretor artístico. O desfile de hoje deverá acabar com esse tipo de discurso.

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